22 janeiro, 2005

Morte anunciada das zonas costeiras

Projecto SIAMCerca de 32% da zona costeira portuguesa está sujeita a uma situação de erosão considerada «preocupante», sobretudo na costa ocidental. «A erosão costeira manifesta-se por um recuo da linha de costa tem afectado extensões consideráveis do litoral continental de Portugal sendo frequentemente observadas taxas de recuo de 1 metro por ano (m/ano). O litoral arenoso da costa oeste é particularmente sensível, com recuos que atingem 20 m/ano, por exemplo, entre a Foz do Neiva e Esposende», declara Filipe Duarte Santos, coordenador do projecto Scenarios, Impacts and Adaptation Measures (SIAM).

O processo de erosão também se faz sentir no litoral rochoso, em sectores de formações geológicas brandas, na costa do Algarve, na Península de Setúbal e em alguns locais da costa alentejana. No período de 1938 a 1995, a linha de topo das arribas no troço da orla costeira entre Olhos de Água e Quarteira recuou a uma taxa de 0,17 m/ano.

Mas o cenário pode ficar mais negro. Estudos recentes no âmbito do projecto SIAM indicam que cerca de 67% da orla costeira continental está em risco de perda de território, principalmente quando o substrato rochoso é brando ou móvel e baixo. A subida do nível médio do mar, projectada pelos cenários climáticos globais até 2100, situa-se entre 0,09 e 0,88, sendo o valor mais provável da ordem dos 0,5 m.

Os resultados do SIAM apontam que as regiões onde o risco é muito elevado são Espinho-Cabo Mondego, na costa ocidental, e Ancão-Foz do Guadiana, na costa algarvia. FilipeDuarte Santos deixa mesmo um alerta: «Alguns troços, como por exemplo, a sul da Foz do Douro até à praia da Cortegraça deveria ser objecto de uma intervenção rápida baseada em estudos da dinâmica do litoral incluindo os impactes das alterações climáticas».

São várias as causas apontadas para o processo erosivo das zonas costeiras, mas na sua maioria este surge associado ao esgotamento das fontes sedimentares externas e à forte deriva litoral. Para o caso português em muito contribuiu «a construção de um grande número de barragens a partir dos anos 40 e que reduziu drasticamente o transporte de sedimentos pelos rios até ao oceano», afirma o responsável pelo SIAM.

Calcula-se que actualmente o Tejo transporta menos de 1/3 da carga potencial de sedimentos para o seu estuário interior e o rio Douro apenas 1/7 do seu potencial de transporte. A extracção de inertes nas zonas fluviais, estuarinas e costeiras para a indústria da construcção civil tem também contribuído para a intensificação da erosão. Mas as obras de protecção da costa, a que se recorrem precisamente «em situações de emergência e sem estudos prévios de médio prazo sobre a dinâmica costeira», tem um efeito perverso ao «acelerarem os processos de erosão em lugar de os mitigar, contribuindo para desviar o transporte de areias para zonas mais externas da plataforma continental».

Fonte: Jornal Água & Ambiente (versão impressa)

Documentos a consultar (em PDF):

Zonas Costeiras

Clima e cenários climáticos em portugal

Ligações:

Alterações Climáticas e seus Impactes

Ambientalistas - Alterações Climáticas

Ambientalistas - Gestão do Litoral

19 janeiro, 2005

NASA aliada ao "Ministério do Ambiente" contra poluição

:)Desenvolver projectos alternativos para a prevenção da poluição ambiental proveniente das indústrias é o propósito do Centro para a Prevenção da Poluição (C3P), que surgiu no âmbito de um protocolo entre a National Aeronautics and Space Administration (NASA) e o Ministério do Ambiente (estabelecido em Setembro de 2002).

O C3P pretende assim promover o suporte de programas/projectos e a identificação dos parceiros e das necessidades dos projectos, através de associações temáticas, organismos governamentais, entidades académicas e pequenas e grandes empresas. Para assegurar o apoio técnico e de engenharia para a gestão de programas, projectos, estudos e análises conta com o International Trade Bridge, enquanto que o suporte para a identificação das necessidades tecnológicas em Portugal e na União Europeia é assegurado pelo Instituto de Soldadura e Qualidade (ISQ). Finalmente, os apoios laboratoriais, de equipamentos e recursos humanos responsáveis por investigação são facultados pelo Instituto de Engenharia Mecânica e Gestão Industrial. Para já, o C3P desenvolveu um projecto no sentido de reduzir os compostos orgânicos voláteis (COV) em algumas indústrias como têxteis, tintas e vernizes, naval, curtumes, automóvel, electrónica e aeronáutica. O trabalho começou com uma auditoria a uma amostra de 20 empresas destas áreas, onde foram detectados semelhantes problemas com a emissão de COV. O Centro pôs-se então em campo para analisar as tecnologias já existentes no mercado e procurar alternativas aos produtos que provocam a emissão destes poluentes tóxicos.

Fonte: Jornal Água & Ambiente

Sei que esta notícia não é propriamente recente. No entanto gostava de partilhá-la convosco e de acompanhar a evolução dos projectos de prevenção da poluição que compreede esta colaboração. Se conhecerem alguns dos resultados destes projectos e os quiserem partilhar, ou se simplesmente quiserem falar sobre a iniciativa, por favor deixem um comentário em baixo.

Ligações:

Projectos sob avaliação e a decorrer

Nasa Aquisition Pollution Prevention (AP2) Program

15 janeiro, 2005

Seca no Algarve será severa se não chover até Fevereiro

O Algarve atravessa, neste momento, um período de «seca moderada», mas, se chover pouco em Janeiro e Fevereiro, a situação de «seca severa» é inevitável. Pior cenário, o de «seca extrema», acontecerá, contudo, se o valor acumulado nos dois meses não superar os 40 milímetros. É preciso, desde já, racionalizar os consumos.

Num relatório sobre a seca na região, ontem divulgado, a Faculdade de Engenharia de Recursos Naturais (FERN) da Universidade do Algarve vai mais longe ao afirmar que o Sul do País «está a tornar-se, progressivamente, uma região mais árida», sendo a «escassez estrutural de água cada vez mais acentuada». Com efeito, segundo o documento, «analisado o período de Outubro de 1941 a Setembro de 2004, a precipitação caída ao longo dos anos hidrológicos tem vindo a decrescer, em termos médios, a uma taxa de -1,67 mm/ano». Por outro lado, no mesmo período, «a média anual da temperatura média diária, ao longo dos anos hidrológicos, tem vindo a aumentar, assim como a evapotranspiração potencial».

Vêr notícia completa no Diário de Notícias


Vêr artigos relacionados:

Água poderá vir a ser racionada no Algarve

Algarve sustentável?

12 janeiro, 2005

Municípios mais ecológicos vão ser distinguidos com galardão

Os municípios vão poder candidatar-se, a partir deste ano, a um galardão que distingue o desempenho ambiental e estabelece objectivos de desenvolvimento sustentável, uma iniciativa hoje apresentada pela Associação Bandeira Azul da Europa (ABAE).


O projecto "Eco XXI" adopta um modelo semelhante ao da bandeira azul (para as zonas balneares) e prevê a atribuição de uma bandeira e um certificado que comprovam a qualidade ambiental dos municípios.Um dos principais objectivos do projecto é contribuir para o aparecimento de mais Agendas 21 Local, um instrumento que o presidente da ABAE considerou "fundamental para o desenvolvimento sustentável"."A ideia é promover uma visão integrada das questões ambientais e criar equipas transversais, para sair da compartimentação", disse José Archer.Embora reconheça que as autarquias "estão mais sensibilizadas" para os problemas ambientais, José Archer entende que nem sempre o ambiente é encarado como "uma prioridade", sobretudo nas autarquias que "sentem mais pressões".

Os municípios terão obrigatoriamente de cumprir quatro indicadores primários: promoção de educação ambiental, aplicação do programa eco-escolas, qualidade da água para consumo humano e valorização de resíduos.Os restantes indicadores privilegiam vários temas, incluindo o funcionamento das instituições, conservação da natureza, ar, água, energia, mobilidade, ruído, turismo e economia, entre outros.

Os municípios podem candidatar-se ao projecto "Eco XXI" entre 15 de Fevereiro e 15 de Maio.

Em Setembro do ano passado, o ministro do Ambiente Luís Nobre Guedes garantiu que 110 municípios terão dentro de dois anos Agendas 21 Locais, revelando que pretende criar um grupo de trabalho para desenvolver o projecto. Actualmente, apenas entre 15 a 20 municípios têm estes instrumentos.Já em Outubro de 2002, o seu antecessor, Isaltino Morais, tinha anunciado apoios financeiros extraordinários para os municípios que quisessem aderir à Agenda 21 Local.Nos termos da Declaração do Rio de Janeiro, aprovada por mais de 150 países em 1992, cada comunidade deve ter a sua própria Agenda 21.


Veja a notícia completa em: Público - ÚLTIMA HORA

06 janeiro, 2005

Refer requalifica linhas férreas abandonadas

EcopistaA transformação de linhas de caminhos de ferros desactivadas em ecopistas constitui uma oportunidade importante para divulgação do património paisagístico existente em Portugal e para a promoção do turismo sustentado.

De acordo com o «Plano Estratégico de Ecopistas», apresentado pela Refer num seminário realizado no passado dia 19 de Novembro, em Lisboa, existem 690 quilómetros que poderão ser transformados em ecopistas, dos quais 144 já estão protocolados com algumas das autarquias abrangidas, sendo que para 100 quilómetros já existem estudos realizados.

Ver notícia completa


Notícia Relacionada:

Primeira Ecopista do país abriu no Alto Minho

Saiba mais sobre as Ecopistas:

Rails-to-Trails Conservancy (em Inglês)
Sustrans General (em Inglês)
Véloroutes et Voies Vertes - AF3V (em Françês)
Trails And Greenways (em Inglês)
Vias Verdes (em Catalão)
Projecto Rever Med

Fonte: AmbienteOnline.pt

29 dezembro, 2004

Qual foi o acontecimento do ano?

E porque já é da praxe fazer a pergunta:

Qual foi o acontecimento do ano, relacionado com Ambiente, que mais marcou Portugal e/ou o Mundo?

Ficamos à espera de comentários.

Consulta pública sobre poluição atmosférica

Permitam-me copiar na íntegra uma notícia do Instituto do Ambiente que julgo ser do interesse de todos os Europeus e que deve ser difundida o mais possível:

«A Comissão Europeia está a elaborar um plano de acção para a melhoria da qualidade do ar na Europa. Este irá incluir medidas com influência directa na nossa vida quotidiana. O modo como nos transportamos, o modo de produção e utilização de energia, a qualidade do ar que queremos, o preço de produtos e serviços, são todas essas questões que serão abordadas nesse plano. Assim, a sua opinião acerca da poluição atmosférica e dos seus efeitos é de grande importância para a finalização do plano.

Esta consulta irá permanecer aberta até 31 de Janeiro de 2005. Os resultados serão publicados em Março de 2005.

As suas respostas irão permanecer totalmente anónimas, excepto para as organizações que se queiram identificar.


Como participar na consulta ao público?

1 - O questionário está disponível em português a partir daqui.

2 - A sua resposta será enviada automaticamente à Comissão Europeia.


O site do CAFE (Clean Air for Europe) inclui os estudos mais recentes de qualidade do ar

27 dezembro, 2004

O Drama, o Horror, a Tragédia

Há cada coincidência na vida! Passo a explicar:
No dia 24, comentava cá por casa, a cultura científica dos nossos jornalistas que continuamente escrevem “calinadas” sobre os mais variados assuntos científicos ou, pior, nem as escrevem. Na semana anterior tinha saído um artigo na revista do Correio da Manhã sobre sismos , onde se fazia a previsão do número de vítimas caso acontecesse um sismo igual ao de 1755. O artigo, baseado na informação prestada por cientistas, previa 15 mil mortos devido exclusivamente a aluimentos de prédios e incêndios. O curioso é que em 4 (quatro!) páginas de artigo, nem uma única vez se fazia referência ao Tsunami, Maremoto, onda gigante – como preferirem – nem aos milhares de vítimas daí resultantes, etc, etc.
Triste coincidência, quando na manhã de dia 26 vejo as notícias….
Mas de facto, já dizia a “Tia”: Não há coincidências.
Imaginemos um sismo igual ao de 1755.
Juntemos ás 15 mil vítimas previstas por idóneos cientistas, mais alguns milhares de vítimas provocadas pela entrada de um Maremoto na baixa Lisboeta (previsão calculada por um não idóneo nem cientista - Eu). Quereremos imaginar um cenário de verão na costa Algarvia?
Se bem se recordam há cerca de 4 anos, em Agosto, houve uma “Onda Gigante” que assolou o Algarve. Felizmente não passou de uma ilusão óptica associada a uma onda de calor proveniente de África, mas que serviu de ensaio ao pior cenário possível. Apesar de residir em Faro há 6 anos, não me encontrava no Algarve quando isto aconteceu, mas tive um relato via telemóvel de alguém que se encontrava na praia de Faro naquele dia, naquela hora. A descrição era tão simples como isto: “ A GNR está a mandar-nos sair da praia, mas não sabe o que é aquilo. Estão milhares de pessoas na praia. O trânsito não anda, está toda a gente parada e dentro dos carros”. Este cenário durou pelo menos 45 minutos. Aproveito para referir que em várias partes do Algarve, nomeadamente em Portimão (relato in loco de um amigo) as pessoas que não estavam na praia, deslocaram-se para lá de propósito para ver a “Onda”…
Numa situação de um verdadeiro Maremoto, não haveria tempo para nada disto. Simplesmente acontecia.
Será provável acontecer? À falta de tempo para fazer uma pesquisa e fundamentar uma opinião pessoal em dados mais científico, basta ouvir as notícias. Segundo os especialistas que têm aparecido nos media a falar:
i) O sismo de 1755 tem um período de retorno de 250 anos, ou seja deveria acontecer um igual antes de 2005. Mas como a natureza não é aritmética pode, ou não, acontecer nos próximos 20 anos. Impossível de prever.
ii) Alegadamente, o sismo que assolou a Ásia serviu para aliviar algumas tensões na crosta terrestre que, associado à libertação de energia do recente sismo sentido em Portugal Continental, reduz as probabilidades de acontecer um sismo de igual magnitude ao de 1755.

Não quero ser um profeta da desgraça, muito menos um céptico em relação ao nosso sistema de protecção civil. Quero apenas relembrar-vos que não se trata de saber se vai ou não acontecer, nem quando. Trata-se apenas de sabermos reagir ou não a um cenário destes. E para isso, o planeamento devia começar a ser feito, ontem. Infelizmente temo que só a seguir a uma catástrofe destas iremos ter um dos melhores planos de contingência da Europa. É preciso cair uma ponte para se inspeccionar todas as outras, e mesmo assim….

Apesar de Lisboa ter um plano de contingência para sismos, duvido que as restantes cidades de Portugal possuam iguais planos. Em particular as do Algarve. A educação da população para estes cenários deveria ser uma prioridade.
Porque este se tornou num artigo de “desabafo”, e pouco científico, permitam-me contar mais uma história. Há alguns anos, houve um passeio de barco no rio Guadiana para estudantes. A meio do rio, houve um incêndio na casa das máquinas do barco. Os estudantes Portugueses nem se mexeram, havendo alguns que aproveitaram para tirar umas fotos “engraçadas”. Apenas uma estudante se dirigiu de imediato para os coletes salva-vidas, o que mereceu algumas risadas portuguesas. A dita estudante, era a única estrangeira no barco (ERASMUS). São aquelas pequenas histórias que me fazem pensar. Não me lembro de uma única vez ter participado num exercício de incêndio ou de sismo, quando sei que isso faz parte da vida de qualquer escola, ou empresa em alguns países (verdadeiramente) desenvolvidos.
Por via das dúvidas, há vários anos que tenho sempre uma lanterna e um estojo de primeiros-socorros em casa. Mais vale prevenir, do que remediar….

26 dezembro, 2004

ISO 14001 e 14004 – novas versões publicadas

Foram recentemente publicadas (a 15 de Novembro) as versões revistas e melhoradas das ISO 14001 e 14004, relativas a Sistemas de Gestão Ambiental. A International Standard Organization (ISO) espera que as novas versões (ISO 14001:2004 e ISO 14004:2004) sejam aplicáveis a mais organizações em todo o mundo.

Segundo Oswald A. Dodds, o Presidente do ISO Technical Group, que elaborou as duas normas, as novas versões incorporam a experiência prática adquirida desde a sua publicação em 1996, e são mais fáceis de compreender e utilizar. Além disso, aumentou-se a compatibilidade com a ISO 9001:2000, relativa aos Sistemas de Gestão da Qualidade. Por sua vez, a ISO 14004:2004 é mais consistente e compatível com a ISO 14001:2004 e mais aplicável às PME’s.

A ISO e o IAF (International Accreditation Forum) estabeleceram um período de 18 meses após a publicação da ISO 14001:2004, para que seja feita a transição dos certificados já emitidos pela ISO 14001:1996 para a nova norma. Após este período , o IAF apenas reconhece certificados segundo a nova norma.

Esse processo contempla duas fases de intervenção:

Na primeira fase, designada por período de preparação e que se prolongará até ao dia 15 de Maio 2005, as empresas poderão seleccionar o referencial de suporte da auditoria, independentemente da sua natureza (concessão, acompanhamento e renovação).

Nos doze meses que se seguirão, período de implementação, que terá o seu epílogo em 15 de Maio de 2006, todas as auditorias serão suportadas na versão de 2004 da ISO 14001. Durante este período eventuais não conformidades constatadas face a novos requisitos ou requisitos alterados na ISO 14001:2004 serão registados em relatório de auditoria, ainda que, e até ao final deste período, não tenham influência no processo de decisão da manutenção da certificação.

Após o dia 15 de Maio de 2006 só serão válidos os certificados de acordo com a ISO 14001:2004.

Fontes:

ISO - International Standard Organization

APCER - Associação Portuguesa de Certificação

A Energia Nuclear face a Quioto

Vi há dias num noticiário um representante da CIP – Confederação da Industria Portuguesa, cujo nome ou cargo não reti (mas penso que seria o presidente) apresentar como alternativa ao aumento de preços da electricidade previstos, a energia nuclear. Apresentou também como argumentos o facto deste tipo de energia existir em países como Itália, Espanha ou Alemanha. Esta posição surgiu como reacção à notícia de que as tarifas eléctricas vão aumentar 2,4 % para clientes finais em Muito Alta Tensão (indústrias) no próximo ano, comunicada pela ERSE – Entidade Reguladora do Sector Energético.

Surpreendeu-me esta visão que negligencia todas as outras formas de energia ambientalmente mais correctas que a energia nuclear. Será que a actividade industrial é tão intensiva no consumo de energia que só a nuclear permite satisfazer as necessidade do sector? Foi com estas questões que resolvi fazer uma pesquisa sobre a energia nuclear.

De facto, apesar deste tipo de produção de energia não emitir CO2, SO2 ou NOx, gera resíduos radioactivos, que têm de ser cuidadosamente geridos para que não ocorram graves problemas de libertação de radiação. Este aspecto suscita-me outra questão: com as metas previstas por Quioto, muitos governantes podem ver a energia nuclear como forma de diminuir as suas emissões atmosféricas. A minha pesquisa comprovou essa questão: encontrei declarações da Comissária europeia espanhola para os Transportes e Energia, Loyola de Palacio, afirmando que a Europa tinha de recorrer à energia nuclear de forma a cumprir as suas obrigações perante o Protocolo de Quioto, reforçando no entanto a ideia de que as fontes renováveis deveriam ser desenvolvidas.

É verdade que comparando as necessidades da energia nuclear com os tipos convencionais de produção de energia, a nuclear apresenta vantagens em termos da eficiência da conversão energética:

1 kg carvão: 3 kW·h
1 kg petróleo: 4 kW·h
1 kg urânio: 50 000 kW·h (3 500 000 kW·h com reprocessamento)

Também é verdade que em termos de uso do solo, uma central nuclear requer menos área que outro tipo de central energética:

Central nuclear/fóssil: 1 - 4 km2
Solar/Fotovoltaica: 20 – 50 km2
Eólica (campos eólicos): 50 - 150 km2
Biomassa (plantações de biomassa): 4000 – 6000 km2

Outro dos grandes constrangimentos à implementação das energias renováveis é o seu custo face à nuclear/fóssil. Desta minha pesquisa também me apercebi que a energia nuclear é muito mais utilizada do que eu pensava – é por exemplo a principal fonte de electricidade em França, tendo percentagens importantes em muitos outros países, nomeadamente a Suécia.

Apesar disso, os países abandonam gradualmente a energia nuclear: nos EUA não se constróem centrais nucleares desde 1996, na Alemanha existe um plano governamental conseguido pelos Verdes para encerrar os 19 reactores nucleares após os 32 anos de operação (o primeiro foi o reactor de Stade, em Novembro de 2003). Outros países, como Espanha, Itália, Holanda e Bélgica, apesar de ainda dependerem dos seus reactores, também se comprometeram a abandonar a energia nuclear. A já referida Suécia que decidiu abandonar a nuclear em 1980, até ao final de 2003 só tinha desactivado um reactor e hesitava em desactivar o segundo. A introdução do Protocolo de Quioto veio mesmo baralhar as contas no que diz respeito ao abandono da nuclear.

Relativamente a soluções para os resíduos radioactivos – o grande calcanhar de Aquiles da energia nuclear – parece que a mais consentânea consiste em depositá-los em formações geológicas profundas (a origem desta solução resultou de observações de fenómenos naturais no Gabão – ver “Magazine on European Research”), apesar de muito pouco se ter feito na prática até agora – a Suécia e a Finlândia são os mais avançados nesta questão.

Em Portugal há algumas notícias bastante relevantes para esta reflexão (PÚBLICO de 6 de Novembro):

« A Mina de S. Domingos, em Mértola, pode acolher já a partir de 2005 a maior central de energia solar do mundo(...)

A central fotovoltaica terá 116 megawatts (MW) de potência, assegurando uma capacidade de produção que é quase o dobro da que está prevista para a central solar da Amareleja (64 MW), em Moura, outro grande projecto que foi anunciado para a região alentejana. O empreendimento terá um investimento calculado em 426 milhões de euros, dará trabalho a 800 pessoas e terá condições para fornecer energia eléctrica a cerca de 130 mil fogos.»

« O secretário de Estado do Desenvolvimento Regional, José Eduardo Martins, revelou algum cepticismo relativamente à viabilidade da central solar de Moura. Destacando que a produção deste tipo de energia renovável é muito cara, o governante, que já foi secretário de Estado do Ambiente, frisou que o problema maior da instalação deste tipo de estruturas "está na diferença entre o custo e o benefício do projecto", considerados por vários especialistas "pouco atraentes". Em Janeiro de 2005, o Governo divulgará, em definitivo, qual a sua posição relativamente à central solar de Moura, anunciou Eduardo Martins.

Se as centrais solares de Moura e S. Domingos vierem a concretizar-se, serão largamente superados os 150 MW de capacidade instalada de energia solar que o Governo tinha programado atingir até 2010. No entanto, António Joyce, director do Departamento de Energias Renováveis do Instituto Nacional de Engenharia, Tecnologia e Inovação (INETI), assinala que até 2004 "foram instalados em todo o país pouco mais de 2 MW". A sua perspectiva é que, até 2010, a capacidade instalada "não irá ultrapassar os 12,5 MW". »

« A produção de biocombustíveis é considerada um sector estratégico no desenvolvimento do projecto de Alqueva. Só a instalação de culturas para produção de bioetanol, com capacidade para 100 milhões de litros/ano, tem destinada uma área de regadio próxima dos 50 mil hectares. A tecnologia de produção de etanol baseia-se na fermentação alcoólica de açúcares presentes nos grãos de cereais e na beterraba e ainda das palhas de milho, trigo, batata e sorgo sacarino. Mas um estudo mandado elaborar pela Empresa de Desenvolvimento e Infra-estruturas de Alqueva (EDIA) sugere que as opções vão para a beterraba sacarina

Uma destilaria mista está já projectada na zona de influência de Alqueva para laborar num ciclo de produção com cereais e beterraba. Permite a laboração ao longo de 330 dias com uma produção média diária de 303 mil litros. Este projecto, para ser viável, tem de ter o apoio do Estado, através de um regime de isenção fiscal por um período de 10 a 15 anos, que deve ser extensível à produção biodiesel, outro biocombustível cuja produção "só pode ser suportada pela utilização privilegiada da cultura do girassol", sugere outro estudo feito pela EDIA. A empresa adianta que em Alqueva pode ser produzida semente de girassol para destilar cerca de 100 mil toneladas/ano de biodiesel.»

Permanece a questão: deveremos encarar a nuclear como uma alternativa viável, apesar dos riscos inerentes e dos resíduos problemáticos, ou tentar aproveitar as características favoráveis do nosso país para a implementação das renováveis?

Comentários precisam-se!!


Ligações:

Avaliação dos impactes radiológicos e na saúde 10 anos depois de Chernobyl

Electricity from nuclear energy (USEPA)

Nuclear Power Advantages


Recomendo também a leitura destes trabalhos da OCDE (em versão PDF):

Energy: the next fifty years

Nuclear Energy in a Sustainable Development Perspective

Technology Innovation, Development and Diffusion